Em 1985, Rui
Zink e os irmãos Gilberto Gouveia e Ricardo Gouveia criam
os Felizes da Fé. Escolhem por território a Rua Augusta,
principal via da baixa lisboeta, e optam por um formato
típico de espectáculo: a manifestação de protesto. Aos
três elementos fixos, juntavam-se sempre alguns amigos que,
segurando cartazes, passeavam ao longo da rua, enquanto um
megafone interpelava os transeuntes.
Em 1986, Ricardo Gouveia (Rigo, hoje um artista plástico conceituado)
emigra para S. Francisco, Califórnia, onde decide fundar
uma filial dos Felizes da Fé. Desde início, os Felizes da
Fé americanos e portugueses obtêm incrível sucesso mediático,
aparecendo nas primeiras páginas dos jornais.
O trabalho dos FF era obviamente circense, mas era também um trabalho político,
através de paródia a acontecimentos políticos e às
convenções do acto político. Era um trabalho que
consistia em agitar a mente popular, para a pôr a pensar
sobre alguns assuntos em que ela normalmente não
pensa.
O espectador comum, perplexo, não
sabia bem como interpretar aqueles estranhos desfiles, à
primeira leitura reconhecíveis como uma manifestação de
protesto. E foi essa primeira leitura que, em Lisboa, levou
à absurda detenção deste grupo de teatro. Durante ano e
meio, os Felizes pararam com as suas actividades de
performance e happening na rua.
Os Felizes da Fé são como um OVNI
na história da performance em Portugal, pois não há
antecedentes ou referentes para o seu trabalho absolutamente
original. Por um lado, há quem pense que eles são neo-pós-dadaistas,
ou que têm uma estética anarco-pop, mas é também verdade
que a essência dos Felizes pode ser encontrada já no circo
romano.
Nos anos 80, em plena crise pós-moderna das
vanguardas artísticas, os Felizes da Fé criam o movimento
Hiperdada, que se afirma como uma forma de anti-arte,
apontando o absurdo da realidade. É uma espécie de Dada
sem fim, um dadaísmo que se multiplica a si próprio, e,
portanto, escapa a qualquer tentativa de entendimento ou
catalogação. A provocação, a paródia, o curto-circuito
das mentalidades, das rotinas, das ideias feitas, era uma
característica estruturante do trabalho dos Felizes.
Entretanto, no início dos anos 90,
a Câmara de Lisboa teve a ideia de promover uma quinzena
cultural diferente, moderna, europeia. E foi assim que os
Felizes da Fé voltaram a actuar e receberam o seu primeiro cachet.
A partir de então, passaram a ser contratados para
realizarem espectáculos em muitos outros lugares.
No auge da sua popularidade, a actividade do grupo cessou inexplicavelmente.
Para alguns, esta súbita decadência seria devida a
crescimento demasiado rápido, ou a uma mudança de
natureza: deixaram de ser um grupo de intervenção,
transformando-se num alegre grupo de animação, com actuações
pagas. Entre os seus actores, reina a discórdia e chovem as
acusações mútuas: uns teriam procurado o sucesso
individual, desprezando o grupo enquanto laboratório de
criação colectiva.