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Críticas

Geração Feliz,  um documentário impossível - Hugo Bola in Congresso Hiperdada

Da política ao espectáculo - Maria João Caetano in Diário de Notícias, 5-3-2001

Rebeldes sem casa - José Mendes in Expresso, 3-3-2001

A Questão Essencial na Malaposta - Miguel Gomes in Público, 17-11-1999

 

 
Diário de Notícias,  5 de Março de 2001


Da política ao espectáculo

"Geração Feliz", trabalho de Leonor Areal, recorda ao longo de uma hora o movimento dos Felizes da Fé e as suas manifestações em Lisboa. Passa hoje (17 horas) no canal por cabo Odisseia


Maria João Caetano

Direitos reservados
"PERFORMANCE". O grupo, liderado por Rui Zink, reunia artistas e não só

Em 1985, Rui Zink e os irmãos Gilberto Gouveia e Ricardo Gouveia criam os Felizes da Fé. Escolhem por território a rua Augusta, em Lisboa, e apresentam os seus espectáculos. Ao grupo inicial juntam-se os amigos. Vêm vestidos com fatos coloridos, trazem máscaras e cartazes, lançam palavras de ordem, interpelam os transeuntes com um megafone, num misto de representação teatral e manifestação política. Os happenings dos Felizes repetiram-se pela cidade ao longo de cerca de dez anos e foram registados em vídeo. Em 1999, data da última performance dos Felizes da Fé (pelo menos, até agora), Leonor Areal realizou o documentário Geração Feliz, recuperando imagens das actuações, recortes de imprensa, imagens dos noticiários de televisão na altura e testemunhos recolhidos posteriormente.

É esse documentário que é hoje exibido pela primeira vez no Canal Odisseia (às 6 e às 17 horas). A realizadora de Geração Feliz, Leonor Areal, é professora universitária e foi uma das participantes nas actividades do grupo.

A sua visão, no entanto, não deixa transparecer qualquer simpatia ou antipatia (excepto quando dá o seu próprio testemunho, enfrentando a câmara) - limita-se a mostrar as imagens dos happenings (ou performances - a discussão surge durante o documentário) e a montar, com alguma ironia, os testemunhos de outros envolvidos (na sua maioria, actores e artistas plásticos) e de convidados que reflectem sobre o assunto (destacam-se o historiador de arte Miguel Wandschneider e o antropólogo Miguel Vale de Almeida).

As apresentações dos Felizes da Fé distinguiam-se pela sua espontaneidade e pela irreverência - tanto podia ser uma manifestação de apoio ao mês de Agosto (porque terá de acabar?) como uma homenagem a Salazar (com 48 intervenientes a cair de cadeiras); tanto podiam ser paradas pela polícia (porque as manifestações precisam de autorização, ao contrário do teatro de rua) como encomendadas pela Câmara de Lisboa. "Queríamos que as pessoas tomassem consciência de si", esclarece Rui Zink, o principal impulsionador do grupo. A intervenção político-estética, como é definida por Wandschneider, optava pela sátira e conseguiu reunir um confortável grupo de adeptos. Sem partido político.

O grupo teve o seu tempo, sofreu os efeitos da popularidade e de alguma discussões internas. Agora, a "geração feliz" continua a existir, mas só virtualmente, em www.felizes.com.

 

Rebeldes sem casa

Saga de um protesto de rua, os Felizes da Fé voltam ao olho da rua Texto de José Mendes

A piada maior do documentário é a de inscrever na História o rol de um protesto inconsequente, lembrando o tom liceal da mania de ter graça

«Manif» na Rua Augusta e intervenção policial: os Felizes da Fé são retratados como «um ovni da história da ‘performance’ em Portugal». Espera-se a sequela?DOS HOMEOSTÉTICOS aos Irmãos Catita, os trilhos da «performance» de rua em Portugal muitas vezes se resumiram a essa salada de amadorismo e auto-indulgência que, funcionando por códigos, intentavam problematizar o que de mais simplista existe: a mania de ter graça. Em 1985, os irmãos Gilberto e Ricardo Gouveia juntam-se a um então desconhecido Rui Zink para formar os Felizes da Fé. A casa da sua rebeldia é a Rua Augusta, à época ainda mal vista pela edilidade alfacinha como proposta de passeio pe­destre. O canal Odisseia, via TV ca­bo, conta a história de um movimento centrífugo único na segunda-feira, dia 5, às 13h e 17h, em devida dose dupla, num documentário de 60 minutos assinado por Leonor Areal.

Do que ali se fala, à partida, é do esquema das manifestações de pro­testo, tendo o megafone por prota­gonista enquanto serventia moral. Alberto Pimenta aparece na fita como homem de bom senso, raridade que só por si valeria um visionamento atento, face a um Miguel Wandschneider que em vários pis­cares de olhos tenta contextualizar em trejeitos o que Zink anuncia como uma proposta de trabalho duro: «Eram precisos muitos ensaios para chegar ao grau de mediocridade pretendido».

O que o incauto fã do Odisseia tem em mãos é um ensaio sobre a validade de uma estética liceal, um exercício de humor e ironia cuja graça se baseia em ser inútil. Como trabalho documental, «Geração Feliz», nome dado ao episódio único, é desde logo brilhante por razões inevitáveis: Areal foi participante activa do «movimento» e teve, sem que alguém lho pedisse, o condão de o registar ao vivo para uma posteridade fadada em o ignorar.

Chamou-lhe um «grupo de teatro inesperado». Para os lisboetas forçados à vocação pedonal, os Felizes da Fé, adorados pelos vespertinos, não constituíam surpresa. O que pode fazer as vezes de uma revelação é a acepção de que nos idos de 80 só «por dentro» uma trivialidade dada à provocação se poderia inscre­ver nos anais da História. Wandschneider chama-lhe todos os nomes, na busca de inscrever o grupo de Zink (tomado como líder, a ter de haver algum) nos compêndios involuntários da arte moderna.

A piada do documentário de Leonor Areal (a que o sóbrio Odisseia dá guarida na senda de mos­trar produção lusa) acaba por ultrapassar as fronteiras da Rua Augusta, os devaneios de Zink e a inconsequência do protesto. O que «Geração Feliz» trata de desvendar é a confiança absoluta num desvario fadado em desafiar todas as formas de autoridade. Nem por acaso, o auge dos Felizes da Fé ocorre em pleno «regime cavaquista». Vê-se o registo de uma «manif» de apoio ao Governo com palavras de ordem como «Cavaco é sensual», ou uma outra pedindo que António Guterres vá para o olho da rua sob o pretexto «ele está lá desde sábado e ainda não fez nada».

Involuntariamente, é um retrato de um movimento tomado por «adolescente» pelos seus próprios teólogos, num cenário que à distância de uma quinzena de anos parece agradar-se pela ausência de sentido ou congratular-se pelo contrário disso. Surpreendentemente organizados, como mostra esta espécie de re­portagem acompanhante, os sobreviventes dos Felizes da Fé ainda hoje acreditam que protagonizavam um trabalho político, no sentido em que «agitavam a mente popular para a pôr a pensar sobre alguns assun­tos em que ela normalmente não pensa. O espectador comum, perplexo, não sabia como interpretar aqueles estranhos desfiles, à primeira leitura reconhecíveis como uma manifestação de protesto».

É aí que reside o apelo irresistível do trabalho de Leonor Areal, se atentarmos a que os admiradores e aderentes incondicionais a conquistar depois do visionamento do documentário se limitam a pensar mais do mesmo, da soleira dos liceus ao fundo das garagens. Areal reconhece os ditames da época, essa «crise pós-moderna das vanguardas artísticas». A solução é a «anti-arte apontando o absurdo da realidade». A Zink e companhia, crentes na ausência de rótulos, resta serem problematizados pelos seus iguais como um «dadaísmo que se multiplica a si próprio», «neo-pós», «anarco-pop» e tudo o resto.

Nos inícios de 90, a Câmara Mu­nicipal de Lisboa trata-os como atracção festiva. Recebem «cachets» e mal aguentam as primeiras duras discussões internas. Zink faz-se vedeta televisiva por conta da SIC e da «Noite da Má Língua», o grupo cai rua abaixo, cada membro acusando o vizinho de estar vitimado pelo sucesso individual, o desprezo pela ideia de laboratório de criação colectiva ou, simplesmente, a maternidade e o «subir na vida».

Ao evocar os «bons tempos», «Geração Feliz» traz-nos um delicioso pedaço de História inconsequen­te que, como quase tudo o resto, tinha de morrer na rua.

in Expresso, 3 Março 2001 (VIDAS p.37)

 
X Encontros de Cinema Documental - A Questão Essencial na Malaposta - Miguel Gomes in Público, 17-11-1999 (excertos)

(...) Quando falamos de documentário falamos também de cinema, e não de audiovisuais anódinos que se prestam a preâmbulo para um debate temático. É óbvio que estes últimos existem, e em maior escala do que os outros. (...)

Mais problemático - porque mais ambicioso - é "Geração Feliz", no qual a videasta Leonor Areal segue, de meados da década de 80 até à actualidade, o percurso dos Felizes da Fé, um grupo de intervenção de rua liderado por Rui Zink. Com 90 minutos de duração (trata-se da mais longa de todas as obras presentes na competição nacional), o filme revela a mesma falta de sentido de "timing" que caracterizou as intervenções públicas dos Felizes da Fé. Contrariamente a "Outro País", "Geração Feliz" tem todos os defeitos e nenhuma das qualidades dos filmes de família. Vê-se como uma daquelas aborrecidas sessões de "slides" que têm interesse circunscrito apenas aos seus autores e participantes. (...)

Os depoimentos dos artistas intercalam no filme com as imagens por eles produzidas. Progressivamente, o filme passa de uma euforia militante para a tristeza do final da utopia. (...)

Afinal uma das vocações do documentário é perscrutar o modo como um indivíduo ou um conjunto de indivíduos se inscrevem num tecido cultural. (...)

 
 

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Actualizado em 24 Novembro 2006
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